domingo, 2 de fevereiro de 2014

02.02.2014


Minha bisavó muito sabiamente costumava dizer que “para morrer, basta estar vivo” e a cada dia eu vejo o quão frágil nós todos realmente somos. 
O que mais nos dói nem sempre é apenas a ausência de uma pessoa querida que a morte desta nos causa mas sim ver que ainda havia tanto a se falar, tantas músicas para se cantar, tantas pessoas para cativar, tantos momentos para se viver.  E é isso o que eu sinto agora.
Eu queria não ter um motivo para escrever essas palavras agora.
Eu queria poder dizer alegremente aos meus pais como um dos meus professores favoritos estava melhor de saúde e que tudo está bem agora mas ao invés disso tive que pedir que me levassem até seu velório.
Serginho foi certamente uma das pessoas mais queridas, inteligentes, engraçadas e cativantes que já cruzaram o meu caminho ao longo desses meus poucos anos de vida.  Foi um ótimo professor, que sempre procurava um jeito de fazer a física mais interessante para seus alunos, seja com uma música, uma piada (porque o míope não vai ao zoológico?) uma história de seus tempos de criança ou um macete para uma fórmula complicada. “Daqui alguns anos vocês vão me encontrar lá no bar e vão dizer “Ai professor, eu não me lembro como funciona mas eu ainda me lembro da musiquinha do me ma ma me re re vi vi i i d d...” tenho certeza disso.”
 Foi um esposo amoroso e um baita de um pai coruja que sempre nos contava as peripécias de seu pequeno Mateus e todas as brincadeiras que os dois compartilhavam. Foi também um grande paraninfo. Me lembro ainda hoje de Cláudia, sua esposa e nossa antiga professora de inglês, falando o quão feliz ele ficara ao ser chamado por nossa turma para discursar em nossa formatura e como segundo ela, ele não conseguia escrever o discurso porque sempre acabava chorando.
Me lembro das piadas, das broncas, do “bom dia” diário enquanto andava apresado pelos corredores do colégio, do “entra paralelo, saiu pelo foco”, do “concavidade pra cima”, do “Vocês estão me vendo? Porque eu sou um ser iluminado” do “ióooooon... Vocês sabem o que é isso? Efeito Doppler.”, do discurso na noite da formatura que arrancou lágrimas de todos os seus alunos, do abraço apertado de parabéns.
Quando consegui juntar a força necessária para entrar na sala em que seu corpo estava sendo velado eu admito que, no meu íntimo, eu desejava encontra-lo lá sentadinho em um cadeira rindo e dizendo que nós não nos livraríamos dele tão fácil assim. Infelizmente isso não foi possível. A Cláudia que eu abracei não parecia a mesma que falava alegremente em inglês nas minhas manhãs na época do ensino médio. O rosto era o mesmo, mas sem o brilho característico e com olhos tristes e cansados. Quando a abracei me esforcei ao máximo para sussurrar um quase inaudível “Eu sinto muitíssimo” em seu ouvido.  O homem de terno não era o mesmo que me abraçara em 2011. Ainda era o mesmo mas sem a aura de riso que sempre tivera, mas ainda assim era ele.
Ainda agora não consigo acreditar em tudo o que aconteceu hoje. Ainda espero acordar amanhã e descobrir que nada disso aconteceu, que fora apenas um pesadelo e que ele e sua família passam muito bem, obrigada.  
Sei que com o passar do tempo as feridas de sua partida cicatrizarão em todos nós mas as lembranças e os ensinamentos que Sérgio transmitiu permanecerão nas mentes e corações daqueles que tiveram o prazer de conviver com ele para sempre. 
Sua falta será sempre sentida. 
Muito obrigada por tudo Professor.

“E se eu não voltar é por que? Eu morri de saudades”

Por Mariana J.

* Dedico essas palavras mal escritas à memória do meu querido ex-professor de física Sérgio Novick e todos os seus familiares e amigos. Descanse em paz Serginho. 

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